sábado, 29 de março de 2014

Resposta (ou Conto de Fadas ao Contrário)

- Então... Você ainda me ama? - Ele disse. Pronto. Ai estava. A frase que ele tinha ensaiado no espelho durante uma semana, a frase que ele achava que nunca iria ouvir em sua própria voz.
As borboletas no estômago estavam mais agitadas do que nunca. "Isso é coisa de menina", ele pensava, tentando fazer as borboletas voltarem para o estômago de alguma garotinha de 13 anos com o seu primeiro namorado. Depois que disse aquela frase, ela pareceu pairar no ar por alguns instantes, o silêncio durou apenas por alguns segundos mas, na cabeça dele, pareceu uma eternidade... Então ele resolveu aproveitar esta pequena eternidade entre a pergunta e a temida resposta da garota.

Olhou para a sua amada. Ah, como era linda. Os cabelos longos quase azul-marinho de tão negros caindo sobre seus ombros, os olhos mais azuis que já tinha visto, tão profundos que podia se ver nadando dentro deles. Olhou para a boca, que um dia já tinha sido toda dele, e imaginou se um dia iria beijar estes lábios outra vez... tudo dependia da tão esperada resposta. Lembrou dos bons momentos que tinha passado ao lado dela, desejando reviver cada um deles. O primeiro beijo, a primeira ida ao cinema, a primeira visita aos sogros (talvez isso ele não quisesse reviver tanto assim), a vez que ele fingiu estar doente só para poder fazer uma surpresa na casa dela quando ela chegasse do trabalho, o primeiro ursinho de pelúcia que comprou para ela, quando ele comprou alianças (ele ainda as tinha no bolso), a primeira vez que ela disse "eu te amo"... Todas essas lembranças passavam como flasbacks pela cabeça do pobre garoto, até que a voz de sua amada tocou seus ouvidos, num tom mórbido.

- Não, eu não te amo mais. - Ela respondeu. Olhou para baixo, virou as costas e saiu andando.

Escrito por: Spark

domingo, 7 de outubro de 2012

Sentimentos rotineiros.

Te amo e te odeio. É como se eu quisesse te dar um tiro e entrar na frente da bala para te salvar. Eu odeio o seu jeito de ser e agir, como pode me irritar tanto apenas com pequenos atos? Sua presença me importuna e até seu timbre de voz me deixa irritada. Agora eu me pergunto: por que ainda estou aqui?
Mas apesar de tudo, não consigo me imaginar com outro alguém. Quando você está (exclusivamente) comigo, é como se os meus (e os seus) problemas nunca existissem... Mas o que está acontecendo?
Por que não consigo acreditar em nenhuma palavra sua? Para falar a verdade, eu já acreditei, mas achei melhor não elevar minhas esperanças para que a queda não seja muito grande. Acho que por causa desse meu costume, fui me afastando de você cada vez mais, e você foi se tornando um estranho na minha vida (e você nem percebeu). Agora, não consigo depositar minha confiança em você, não acredito em nada do que você diz, apesar de todas as lágrimas... Mas todos nós sabemos que você não fez nada de errado!
Eu te amo, quero que isso fique bem claro.
Acho que isso não é justo com você, e nem comigo. Acho melhor terminar este conto toda antes que alguém saia machucado.

Escrito por: Spark

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Meninas e Sorvetes.


E lá estava eu. Tudo parecia tão pequeno visto daqui de cima, como se eu fosse a rainha de tudo. O vento estava frio e meu corpo estava congelando, mesmo com o meu jeans mais confortável e o meu maior moletom. Estava parada, de pé em cima do terraço do prédio em que morava, e sim senhores, ia pular. 8 andares, uma queda relativamente rápida. "Não vai doer nada" pensava, "Quando perceberem, já vou estar em terra firme, mas só o meu corpo vai estar em terra firme".
Via as pessoas lá em baixo passando, algumas apenas caminhando e outras muito apressadas, com seus saltos e gravatas apertados. Via pessoas saindo de lojas, lanchonetes e shoppings. Vi uma garotinha com fitas no cabelo saindo da minha sorveteria favorita com um sorvete enorme na mão, com um sorriso no rosto que me causou um pouco de inveja. Como eu queria ser uma daquelas pessoas, apenas ali, existindo. Mas eu não queria existir, queria sumir do mapa, explodir.
Estava cansada da vida, cansada de tudo e de todos, como se o Mundo estivesse conspirando contra mim. E acho que estava mesmo. Todos a minha volta me odiavam, falavam de mim pelas costas e sempre deixavam minha auto-estima abalada, seja com um comentário de mal gosto, seja com uma perna que a pessoa colocou no meu caminho e me fazendo cair na frente de todos. E essa era a minha rotina, dia após dia, pessoas me criticando, me fazendo mal e me humilhando. E sabe, eu cansei de tudo isso, pra quê ter uma vida se todos realmente não querem a presença da sua?
Parei um pouco e me sentei no parapeito do enorme precipício que estava prestes a pular. A menina de fitas no cabelo estava sentada na calçada, observando o seu sorvete que acabara de cair no chão. Será que isso tudo vai valer a pena? Estou prestes a me libertar das minhas mágoas se eu morrer? E aquelas pessoas que me fazem mal, vão se sentir orgulhosas do que fizeram depois que souberem da minha morte? Meus pais, o que farão? Pensei em todas essas questões, observava a menina sentada na calçada, estava triste e sozinha, me identifiquei com ela. Nós duas estamos tristes, mas a tristeza dela um dia vai passar, quando alguém lhe comprar outro sorvete. E por que a minha tristeza também não pode ser passageira?
Era isso que eu ia fazer, tornar a minha dor algo passageiro. Dar a volta por cima. Ter a "vingança" porque no momento, o que eu queria era fazer todas aquelas pessoas que me fizeram mal sofrerem, e sofrerem o dobro. Por isso eu decidi, daquele dia em diante, vou irritar a todos com a minha presença, se destacar entre todos, pois é isso que aquelas pessoas não gostam, da minha presença. E o que eu vou fazer, é ser confiante e mostrar ao mundo quem eu sou de verdade, da minha maneira. Desci do terraço, fui até a minha sorveteria favorita e comprei um sorvete para a menina de fitas no cabelo. A tristeza de nós duas tinha acabado.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Fotos suas.

Queria poder lembrar de tudo que aconteceu, mas nao lembro. Que coisa. Lembro que aquela noite, tiramos tantas fotos, e ainda tenho bastante delas. Nunca, ninguem tinha me chamado de 'monalisa'. Principalmente  depois, disse que nao achava a tal pintura bonita, e a coitada feia. 
Fiquei paralizada, sem reacao. Afinal, estaria me chamando de feia na minha cara?. - Ate entao, nao se sabe. Ri como uma coitada, coitada de mim. Na mesma hora, percebi que estava serio, e que era a unica a achar aquilo motivo de riso. Entao, voce se virou e disse:
- Monalisa, talvez seja comico. Mas tem algo nela que brilha... Por isso é tao admirada. 
- Talvez, ela fosse drag queen. - Finalmente, finalmente. Eu havia conseguido retirar um sorriso seu. 
Entao ali ficamos, andando em meio aquela cidade enorme, da qual nenhum de nos havia conhecido antes. Tao enorme, ate onde nossos olhos alcancavam. O céu, era coberto de torres e as nuvens extremamente brancas. Ali, que tinhamos nos conhecido. Obrigada, por me fazer lembrar.
Andando ali, achamos um litoral. Inesperado, mas achamos. Voce me contou a tal piada, sem graca do mamao papaya. Quando abriu aquele sorriso em seu rosto, fiquei a observar. Era um complemento perfeito para seus olhos azuis, pois estavam refletindo o mar. Caindo na risada, eu conseguia observar o tal 'brilho' que voce havia dito. Que me desculpe a tal pintura, mas nao. Ela nao o tinha. O tal brilho, estava todo em seus olhos. Todo o tempo. E voce ali, continuava a rir, achava "um barato" seu senso de humor fora de hora. 
Eu sabia que uma hora, nao o veria mais. Ja esperava. Eu tinha de ir tambem. Nao tinha como parar tudo isso. 
Entao, depois de dias eu fui embora com um envolope em maos. Fotos, o que havia dentro. Eu tenho olhado há tanto tempo, essas fotos suas, que eu quase acredito que são reais, tenho vivido há tanto tempo com essas. Que eu quase acredito que as fotos são tudo que posso sentir.
"Adeus, Monalisa."


Escrito por: Pillow.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Chuva de Fogo.

Abri o caderno e encontrei a sua carta. Triste, abrir aquilo e pensar que ainda te amava.
De certa forma, aquela carta nao era pra mim, nao era para estar em minhas maos. Alias, nao era nem para eu ter guardado. Entao abrindo e lendo em voz baixa, eu reclamava da vida e pensava 'Por que?'. A minha surpresa triste foi me comover com um simples 'Sou louco por ela'.
Acabei imaginando seus olhos me dizendo 'agora quem nao quer sou eu'. E nao sei porque, algo me dizia que eu teria que fazer algo para acabar com isso. Entao, juntei todas as suas coisas, dentro de uma especie de pote de vidro e quando estava prestes a queimar tudo aquilo, dua mao me segurou e sua respiracao forte estava chegando como um vapor quente perto ao meu rosto. E com um sopro, voce apagou o fosforo em minhas maos, dizendo 'Por favor, nao desista de mim'. Meus joelhos amolecem, me arrepio e mais uma vez me pergunto por que sou tao errada.
Escrito por: Pillow.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tempos (nem tão) modernos.


Te contarei uma história, meu amigo, totalmente verdadeira, eu estava lá observando tudo, com uma distância suficiente para escutar o que diziam mas também não ser percebido. 
Os dois estavam sentados em um banco qualquer, de uma praça qualquer. O dia era nublado e as nuvens estavam carregadas, garoava um pouco, mas a garota já não se importava com seu cabelo ou com a jaqueta de couro que usava. O garoto também não se importava se sua bicicleta parada ao lado do banco estava enferrujando ou se seu tênis estava tão molhado a ponto de encharcar suas meias. Só enxergavam um ao outro, tão apaixonados quanto no dia em que encontrei minha mulher pela primeira vez.
Uma pena apenas as outras pessoas perceberem esse amor entre os dois jovens (de aproximadamente uns 16 ou 17 anos, eu acho). Pelo o que pude ouvir, os dois são melhores amigos, estudam no mesmo colégio e se conhecem desde os 5 anos de idade. Mas algo os incomodava.
Não entendo nada desses "relacionamentos modernos", logo eu, um homem grisalho, com os meus 55 anos nas costas e um bigode metade branco metade ruivo fui me interessar pela conversa de dois amigos que estavam em crise?
- O que voce está fazendo aqui? - Perguntou a garota para o menino que estava parado ao lado dela, eu acendi o meu charuto - O dia está chuvoso, é melhor voce ir para a sua casa, tchau.
Pude perceber o tom de desprezo na voz dela, como se ela estivesse sentada naquele banco apenas para pensar na vida, não querendo encontrar ninguem, muito menos ele. Charuto Guantanamera. Cubano, o meu favorito, muito obrigado. Tentava pensar em outras coisas, mas a curiosidade não me deixava.
- Estou fazendo o mesmo que voce - dizia o garoto, sentando do lado dela - O que está fazendo nessa garoa? Vai pegar um resfriado, tome, pegue a minha blusa...
- Não - Ela tirava o casaco dele de suas costas, em movimentos agressivos e impacientes - Eu só não quero a sua compainha agora, nem agora nem nunca mais.
- Ainda brava comigo?
- Não estou brava.
Nunca entendi isso. Estava claro que ela estava brava. Mas as mulheres tem esse encanto de deixarem os homens arrependidos com uma simples ironia.
- É claro que está, sou seu melhor amigo, nao pode esconder nada de mim.
- É claro que eu posso, da mesma forma que voce fez comigo. Como pode me odiar tanto assim a ponto de fazer aquilo?
- Eu não fiz nada do que te falaram, eu nao acredito que voce acredita mais naquelas vadias do que em mim!
- Olha, realmente eu não quero falar disso agora.
Ela se encolheu entre as pernas com os pés em cima do banco. Eu não sabia o que tinha acontecido entre eles, e nem sabia quem eram, mas eu ja sabia o que o garoto era um idiota que não fala nada que faça ela se sentir melhor, acho que o todos os garotos dessa idade são assim. Até que uma coisa me surpreendeu.
O garoto estava acariciando a cabeça dela, enquanto ela chorava silenciosamente.
- Olha - ele começou - Eu não sei se agora é o momento certo para te dizer isso, eu nem sei se eu devia te dizer isso, mas... eu te amo. Mas não como um melhor amigo, de um jeito muito maior do que isso. Eu te amo desde sempre, nunca entendi como voce nao percebeu. Tudo o que eu queria agora é que voce seja minha, acordar do seu lado todos os dias, te trazer o café da manhã na cama e deixar voce usar as minhas roupas. Cuidar de voce e receber o mesmo em troca. Te amar é uma das coisas mais dificeis que eu ja passei na vida, porque agora eu sei que voce nao sente o mesmo por mim. É melhor eu ir embora, ja estou fazendo papel de idiota aqui...
O garoto seguia seu rumo, estava pegando sua bicicleta quando a garota se levantou, ainda com lágrimas nos olhos (claramente essas lágrimas não eram mais de tristeza), puxou o casaco de moletom verde do garoto, para que ele venha até ela, e lhe tascou um beijo. Meu charuto tinha acabado. Levantei-me, abri meu guarda-chuva e fui embora, passando na frente dos dois, agora abraçados. Tão apaixonados.

Escrito por: Spark

sábado, 1 de outubro de 2011

Timidez.

Eu poderia ter escolhido qualquer sentimento aquela hora, qualquer coisa. Mas morrer estaria perfeito.
Fazia dois anos que eu o tinha conhecido, eu mal sabia o seu nome. E claro, eu não revelei meu nome também, não tinha nem coragem de olhar em seus olhos. Voltei a correr pelos campos perto de casa, atendendo o celular.
- Está querendo sair? - Até a voz dele era obscura.
- Não, mas também não "estou querendo" ficar sentada na grama.
Cinema, programa sobre finais de semanas baratos, que apesar de tudo. Ainda usufruímos de tudo isso, até com quem tínhamos medo. Chegando ali, eu o cumprimentava sem olhar em seu rosto. Quase num pedido de desculpa por achar que uma mulher não podia sair com um amigo sem estar em meio a um relacionamento;
- Por que não olha em meus olhos?.
E pela simples razão de não querer dizer a verdade, por medo de mergulhar no ácido, de cair no sal. Medo de amar. Somente veio alguma coisa a minha cabeça.
- Como se isso importasse a você.
Ao entrarmos na livraria tão vazia, mantenho distancia. Segurança.  o que eu mais temia acontece.. Falar sobre mim.
- Você é tão tímida, mas provocativa com o seu jeito de colocar mechas de cabelo atrás da orelha. Como passa sua mão pelo pescoço quando se incomoda com algum comentário e se sente constrangida. Você não é decifrável. Impossível saber se você é realmente um sexo frágil. Parece mais forte do que qualquer bicho de sete cabeças.
- Pare de me analisar. -Sim, eu passei as mãos pelo pescoço, afastando o cabelo. E isso só fazia de mim uma garota qualquer.
- Analisar?. Pare de se desmerecer. Acha mesmo que tudo isso é mentira?.
- Desisto, realmente eu desisto. -Viro as costas. Indo embora? sim.
E ao segurar-me pelo braço, escuto sua respiração perto de meu cabelo escondido atrás das orelhas. E um sussurro. Fazendo me virar rapidamente, com um olhar fixo em seus olhos.
- Case comigo. -Dizia ele em tom sério, exalado sorrisos.
Duas palavras. Dez letras que tinham o poder de fazer meus joelho dobrarem, e fazer com que a timidez odiada subir aos olhos. E com o olhar fixado no dele, a timidez escorreu pelo rosto através de substancia pior que ácido. Lagrimas.


Escrito por: Pillow