terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tempos (nem tão) modernos.


Te contarei uma história, meu amigo, totalmente verdadeira, eu estava lá observando tudo, com uma distância suficiente para escutar o que diziam mas também não ser percebido. 
Os dois estavam sentados em um banco qualquer, de uma praça qualquer. O dia era nublado e as nuvens estavam carregadas, garoava um pouco, mas a garota já não se importava com seu cabelo ou com a jaqueta de couro que usava. O garoto também não se importava se sua bicicleta parada ao lado do banco estava enferrujando ou se seu tênis estava tão molhado a ponto de encharcar suas meias. Só enxergavam um ao outro, tão apaixonados quanto no dia em que encontrei minha mulher pela primeira vez.
Uma pena apenas as outras pessoas perceberem esse amor entre os dois jovens (de aproximadamente uns 16 ou 17 anos, eu acho). Pelo o que pude ouvir, os dois são melhores amigos, estudam no mesmo colégio e se conhecem desde os 5 anos de idade. Mas algo os incomodava.
Não entendo nada desses "relacionamentos modernos", logo eu, um homem grisalho, com os meus 55 anos nas costas e um bigode metade branco metade ruivo fui me interessar pela conversa de dois amigos que estavam em crise?
- O que voce está fazendo aqui? - Perguntou a garota para o menino que estava parado ao lado dela, eu acendi o meu charuto - O dia está chuvoso, é melhor voce ir para a sua casa, tchau.
Pude perceber o tom de desprezo na voz dela, como se ela estivesse sentada naquele banco apenas para pensar na vida, não querendo encontrar ninguem, muito menos ele. Charuto Guantanamera. Cubano, o meu favorito, muito obrigado. Tentava pensar em outras coisas, mas a curiosidade não me deixava.
- Estou fazendo o mesmo que voce - dizia o garoto, sentando do lado dela - O que está fazendo nessa garoa? Vai pegar um resfriado, tome, pegue a minha blusa...
- Não - Ela tirava o casaco dele de suas costas, em movimentos agressivos e impacientes - Eu só não quero a sua compainha agora, nem agora nem nunca mais.
- Ainda brava comigo?
- Não estou brava.
Nunca entendi isso. Estava claro que ela estava brava. Mas as mulheres tem esse encanto de deixarem os homens arrependidos com uma simples ironia.
- É claro que está, sou seu melhor amigo, nao pode esconder nada de mim.
- É claro que eu posso, da mesma forma que voce fez comigo. Como pode me odiar tanto assim a ponto de fazer aquilo?
- Eu não fiz nada do que te falaram, eu nao acredito que voce acredita mais naquelas vadias do que em mim!
- Olha, realmente eu não quero falar disso agora.
Ela se encolheu entre as pernas com os pés em cima do banco. Eu não sabia o que tinha acontecido entre eles, e nem sabia quem eram, mas eu ja sabia o que o garoto era um idiota que não fala nada que faça ela se sentir melhor, acho que o todos os garotos dessa idade são assim. Até que uma coisa me surpreendeu.
O garoto estava acariciando a cabeça dela, enquanto ela chorava silenciosamente.
- Olha - ele começou - Eu não sei se agora é o momento certo para te dizer isso, eu nem sei se eu devia te dizer isso, mas... eu te amo. Mas não como um melhor amigo, de um jeito muito maior do que isso. Eu te amo desde sempre, nunca entendi como voce nao percebeu. Tudo o que eu queria agora é que voce seja minha, acordar do seu lado todos os dias, te trazer o café da manhã na cama e deixar voce usar as minhas roupas. Cuidar de voce e receber o mesmo em troca. Te amar é uma das coisas mais dificeis que eu ja passei na vida, porque agora eu sei que voce nao sente o mesmo por mim. É melhor eu ir embora, ja estou fazendo papel de idiota aqui...
O garoto seguia seu rumo, estava pegando sua bicicleta quando a garota se levantou, ainda com lágrimas nos olhos (claramente essas lágrimas não eram mais de tristeza), puxou o casaco de moletom verde do garoto, para que ele venha até ela, e lhe tascou um beijo. Meu charuto tinha acabado. Levantei-me, abri meu guarda-chuva e fui embora, passando na frente dos dois, agora abraçados. Tão apaixonados.

Escrito por: Spark

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